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2 de mai. de 2026
VESTIDA DE PASSARINHOS
Um vestido vermelho com passarinhos azuis e verdes desperta lembranças da infância e da mãe falecida.
Por Misa Ferreira
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Foto: Misa Ferreira
Eu estava encantada com o vestido de passarinhos. É verdade que mais parecia um vestido de menina, e talvez fosse exatamente por isso que eu me senti tão atraída pela roupa. Era um vestido vermelho pintado de passarinhos azuis e verdes, dois a dois em cima de um galho e eram milhares de passarinhos. Eu não precisava mais de nenhum vestido, ainda mais um vestido grande demais para meu tamanho. Mas eu gostei tanto dele que fui desabalada para a loja, debaixo de um sol escaldante como se fosse salvar o planeta de uma terrível catástrofe. Finalmente ele estava em meus braços e eu o abracei com carinho como se abraça um bebê. Agora a costureira espetava os alfinetes aqui e ali para apertar o vestido.
Foi exatamente naquele momento que eu sofri um ataque fulminante de ternura. Voltada para o espelho, com o olhar perdido nos passarinhos, eu sorri, e sem pensar, sem compreender, mas com o coração transbordando de amor, falei mais para mim do que para a outra: “se minha mãe estivesse viva, ela iria gostar muito deste vestido de passarinhos”. Estranhei minha própria fala. Era como se tivesse sido outra pessoa a falar e não eu, pois no momento, eu estava transportada para outro mundo ou outra vida, tanto fazia. Saiu do âmago de minha alma. Aquela fala atravessou o tempo, idades, vidas, mundos, e saiu como alguém em completa paz.
Naqueles pequenos momentos, eu me lembrei de uma vida inteira. De minha mãe que costurava cantando na velha máquina debaixo da janela do quarto do meio, lembrei-me de seu estojo de corte e costura, das réguas, tesouras, moldes, agulhas, linhas e retalhos. Lembrei-me do riso das alegres aprendizes de costura. Aí fui direto para a copa da casa da infância, com a mesa de fórmica e as cadeiras coloridas, cada uma de uma cor. Vi os cachorros lá fora, a escada de madeira, os quartos. Vi pela janela da sala a enxurrada que descia com violência. Vi-me acompanhando minha mãe à sacristia da igreja para trocar as flores do altar. Tudo isso em poucos minutos, enquanto a costureira me prendia em milhares de alfinetes. Eu me admirei de como a vida podia caber em apenas alguns minutos. O vestido era grande demais para mim.
Meus olhos ameaçaram transbordar as lágrimas. Funguei constrangida. Contemplei o vestido e achei-o lindo. Contemplei vida e a achei-a triste e bela. A costureira acabara de espetar o último alfinete.
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