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25 de set. de 2026
Acontecimentos Meteorológicos na Semana do Dia 20 de Setembro de 2026
Na semana do equinócio de setembro, frente fria provocou ventos de até 115 km/h, chuvas intensas e desabamentos no RS, gerou meteotsunami em SC e elevou o número de tornados a 86 em 2026, tudo sob forte El Niño.
Por Michelle Reboita
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Foto: Conexão Itajubá
A quarta semana de setembro de 2026, iniciada no dia 20, além de marcar o início astronômico do equinócio de primavera no Hemisfério Sul e de outono no Hemisfério Norte, também foi marcada pela atuação de diferentes sistemas atmosféricos sobre o Sul e o Sudeste do Brasil.
O Equinócio
A palavra “equinócio” vem do latim aequinoctium, que significa “noite igual”, e refere-se à ideia de que a duração do dia e da noite é aproximadamente igual. Astronomicamente, a palavra equinócio indica que os raios solares estão concentrados sobre o equador e, portanto, os dois hemisférios possuem dias e noites com duração aproximada de 12 horas (USNO, 2026). O equinócio ocorre duas vezes ao ano: uma em março e outra em setembro. No dia 22 de setembro, iniciou-se o equinócio de primavera no hemisfério austral (Figura 1) e, a partir dele, a duração dos dias se torna maior até o solstício de verão em 21 de dezembro.
Em geral, as chuvas mais frequentes na região Sudeste do Brasil ocorrem a partir de meados da primavera, porém, nesse ano as chuvas já estão atuantes por mudanças na circulação da atmosfera em função do evento El Niño (veja a matéria publicada em 11 de setembro de 2026 sobre esse evento: https://www.conexaoitajuba.com.br/artigo/el-nino-e-aquecimento-global-uma-combinacao-perigosa-para-a-sociedade).

Figura 1 Ilustração da distribuição da energia solar e da ocorrência do equinócio de primavera.
Sistemas de Tempo
Na madrugada do dia 21 de setembro, a passagem de uma frente fria causou tempo severo em várias cidades do Rio Grande do Sul. A Figura 2 mostra a nebulosidade associada ao sistema sobre o Rio Grande do Sul. As rajadas de vento foram intensas no sul do estado (113,7 km/h em Rio Grande e 104,1 km/h em Cerrito) bem como nos arredores da capital gaúcha (115,8 km/h em São Jerônimo). Já os maiores acumulados de chuva foram registrados em municípios do nordeste do Rio Grande do Sul: Caxias do Sul (145 mm), Santa Tereza (136,4 mm), Muçum (123 mm), Flores da Cunha (118 mm) e Jaquirana (116,2 mm) (G1, 2026a,b). Em termos de danos, várias estruturas foram danificadas em cidades como Rio Grande, Pelotas e São Marcos. Em Pelotas, um prédio desabou e em São Marcos, as inundações afetaram uma barragem que se encontra em situação de rompimento. No dia 24 pelo menos 170 pessoas tinham sido removidas das áreas de risco em São Marcos (CNN, 2026).

Figura 2 Imagem de satélite às 06 horas local no dia 21 de setembro de 2026 mostrando nuvens associadas a uma frente fria sobre o Rio Grande do Sul. Fonte: https://satelite.inmet.gov.br/
O ambiente atmosférico propiciado pela frente fria também foi responsável pelo desenvolvimento de nuvens organizadas na forma de linha (linha de instabilidade; Figura 3) no sul de Santa Catarina, que, por sua vez, causou ventos intensos (60 e 90 km/h) levando à ocorrência de um tsunami meteorológico por volta das 6 horas do dia 21 de setembro nas localidades de Jaguaruna, Laguna e Imbituba (IG, 2026).
Tsunamis meteorológicos e geológicos provocam a invasão da água do mar em regiões costeiras, mas possuem causas distintas. Os tsunamis de origem geológica são aqueles em que o deslocamento de massa, causado por terremotos ou erupções vulcânicas, provoca o movimento da água. Já os tsunamis meteorológicos, também chamados de meteotsunamis, são causados por fenômenos atmosféricos que provocam alterações rápidas na pressão atmosférica e ventos fortes sobre o oceano (Oliveira et al., 2021). Portanto, a principal diferença entre os dois tipos de fenômeno está nos mecanismos de geração. A intensidade e a extensão desses fenômenos também são diferentes, sendo os meteotsunamis geralmente de menor escala.

Figura 3 Imagem de satélite às 07 horas local no dia 21 de setembro de 2026 mostrando uma linha de instabilidade (linha de nuvens adiante de uma frente fria) no sul de Santa Catarina. Fonte: https://redemet.decea.mil.br/
Os estados do Sul do Brasil estão na rota de sistemas frontais e localizados em uma área propícia ao desenvolvimento de nuvens de tempestade. Dessa forma, eventos extremos nessa região não são algo fora do comum. O incomum é a quantidade de tornados que vêm sendo registrados: de janeiro a agosto de 2026, já foram contabilizados 86 desses sistemas (OSUL, 2026). Alguns fatores, no entanto, precisam ser levados em consideração. Anos atrás, com menos meios de comunicação disponíveis, muitos casos deixavam de ser reportados. O PREVOTS, grupo de meteorologistas focado em melhorar a documentação, a pesquisa e a previsão de tempestades severas no Brasil (prevots.org), começou a coletar registros de tempo severo (rajadas de vento, granizo e tornados) em junho de 2018. Ano após ano, a plataforma do PREVOTS tem ganhado mais alcance, aumentando o volume de relatos documentados. Isso pode ser um dos motivos para o grande número de eventos registrados em 2025 e 2026. Por outro lado, a influência do aquecimento global também deve ser considerada: com a atmosfera mais quente e com maior capacidade de reter umidade, há condições mais favoráveis para o desenvolvimento de tempestades severas, que são o “berço” dos tornados. Além disso, não se pode esquecer que estamos num período de El Niño, que é favorável ao acúmulo de umidade na região Sul do país e configurações na alta atmosfera que favorecem a elevação do ar de níveis mais baixos, o que agrega mais potencial para os eventos extremos.
Na região Sudeste do Brasil, o estado de São Paulo e o sul de Minas Gerais tiveram predomínio de nebulosidade na semana do dia 20. Até o dia 22, isso foi decorrente de um sistema em altos níveis da atmosfera que favoreceu o movimento ascendente do ar, enquanto, próximo à superfície, ventos escoavam do oceano, transportando umidade para a região. Já no dia 23, a mesma frente fria responsável pelo tempo severo no sul do Brasil, no dia 21, conseguiu chegar no sul de Minas Gerais causando precipitação (Figura 4).

Figura 4 Imagem mostrando a nebulosidade (branco) associada à frente fria sobre o Sudeste do Brasil e as linhas de pressão atmosférica ao nível médio do mar às 09 horas local no dia 23 de setembro de 2026. Fonte: https://satelite.inmet.gov.br/BR
O El Niño e seus Impactos
A mídia tem destacado o fato de haver um menor número de ciclones tropicais na bacia do oceano Atlântico Norte nesse ano, e a culpa é do El Niño. O El Niño é um fenômeno que altera a circulação atmosférica em escala global e afeta a ocorrência de ciclones tropicais nas bacias do oceano Atlântico Norte negativamente e no oceano Pacífico Nordeste positivamente. No Atlântico Norte, a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) indicou que em 2026 o desenvolvimento do El Niño favorecerá uma redução na atividade de ciclones tropicais (furacões), principalmente devido ao aumento da intensidade do vento em altitude, que é um inibidor para esses sistemas. Já para o Pacífico a situação é oposta e preocupante, pois o El Niño continua se fortalecendo e favorecendo os sistemas nesse oceano. Recentemente, o litoral oeste do México esteve em estado de alerta devido ao furacão Polo (Figura 5), que atingiu no dia 22 de setembro a categoria de intensidade 5 (BBC, 2026), ao desenvolver ventos de 270 km/h. Quando os ventos de um ciclone tropical ultrapassam o limite de 253 km/h são classificados como furacões de categoria 5 (Figura 6), que é o nível máximo, na Escala Saffir-Simpson (vide https://www.nhc.noaa.gov/aboutsshws.php para conhecer mais detalhes dessa escala).

Figura 5 Imagem de satélite mostrando o furacão Polo na costa do México. Fonte: https://satelite.cptec.inpe.br/

Figura 6 Classificação dos ciclones tropicais nas bacias do oceano Atlântico Norte e Pacífico Leste/Nordeste baseada no National Hurricane Center (NHC) da NOAA.
As mudanças climáticas juntamente com o fenômeno El Niño não trazem boas perspectivas para os próximos meses. O Climate Impact Lab (CIL, 2026) estima que com o atual episódio de El Niño as temperaturas médias no globo se elevem a cerca de 1,2 °C acima do normal nos meses seguintes, resultando em ~44% mais dias de calor extremo. Com base em previsões sazonais do European Centre for Medium-Range Weather Forecasts (ECMWF) e em relações entre temperatura e mortalidade para 24.378 regiões do mundo, o estudo estima cerca de 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor entre junho de 2026 e fevereiro de 2027, em comparação com um ano normal. Para o Brasil, o número estimado de óbitos adicionais é de 13.300 nos próximos seis meses.
E a Água?
Três dias antes da semana em análise nesse descritivo, isto é, no dia 17 de setembro, a Organização Meteorológica Mundial (WMO) publicou o relatório WMO State of Global Water Resources 2025 (WMO, 2026), que apresenta uma avaliação global do ciclo hidrológico e dos extremos relacionados à água em 2025 e nos últimos cinco anos. O principal resultado é que 2025 esteve entre os anos mais secos para a vazão dos rios em mais de três décadas, com vazões abaixo do normal em cerca de 36% das áreas de bacias hidrográficas globais; além disso, pelo sétimo ano consecutivo, as bacias com condições consideradas normais foram minoria. O relatório também mostra uma redução persistente do armazenamento de água continental desde 2014–2016, déficits de águas subterrâneas em diversas regiões e perda generalizada de massa das geleiras pelo quarto ano consecutivo, com uma perda acumulada de aproximadamente 1.400 Gt de água entre 2023 e 2025. Ao mesmo tempo, o ciclo hidrológico está se tornando mais irregular e extremo, alternando entre secas e inundações.
Reflexão
Minha mensagem final ao leitor é um convite à reflexão sobre as condições cada vez mais adversas que nos aguardam em um futuro muito próximo e sobre a urgência de estarmos preparados para enfrentá-las.
Referências
BBC, 2026: O furacão que colocou litoral do México em alerta em meio ao 'super El Niño’.
Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/articles/cxr50j178lv6o
CNN, 2026: RS entra em alerta para colapso de barragem e inundação de rios | CNN NOVO DIA. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=scCIRc3zPko
CIL, 2026: 451,000 at Risk Where Action Can Save Lives During the Super El Niño. Disponível em https://impactlab.org/research/451000-at-risk/
G1, 2026a: Uma pessoa fica ferida, prédio desaba e mais de 700 mil imóveis ficam sem luz após temporal no RS. Disponível em https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/09/21/temporal-estragos-pelotas-rio-grande-sul-rs.ghtm
G1, 2026b: Tempestade deixa mais de mil casas destelhadas, 18 destruídas e 800 pessoas fora de casa no RS; veja estragos. Disponível em https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/09/21/tempestade-ventos-estragos-rs-sem-luz.ghtml
IG, 2026: Tsunami meteorológico: entenda o evento raro que atingiu SC
Oliveira, U. R. de, Simões, R. S., Romeu, M. A. R., Calliari, L. J., & Reboita, M. (2021). Tsunamis meteorológicos no sul do Brasil: Processo de formação, áreas de ocorrência e impactos associados. Em Sociedade, ambiente e tecnologia: Mar afora, costa adentro (Tomo X da Rede BRASPOR) (pp. 15–28). FGEL-UERJ. https://www.redebraspor.org/livros/2021/Braspor%202021%20Artigo%201.pdf
OSUL, 2026: De janeiro a agosto, o Brasil contabilizou 86 tornados, segundo maior número já registrado. Disponível em https://www.osul.com.br/de-janeiro-a-agosto-o-brasil-contabilizou-86-tornados-segundo-maior-numero-ja-registrado/amp
USNO, 2026: Length of Day and Night at the Equinoxes. Disponível em https://aa.usno.navy.mil/faq/equinoxes
WMO, 2026: WMO: Recent water trends have serious future implications. Disponível em
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