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A Princesa

12/05/2019

Por Misa Ferreira

Depois que minha mãe foi para o Céu, na mesma noite, depois de nos reunirmos em sua casa para um bolo com café e lágrimas (eu mesma não chorava mais), cada um de nós foi para sua casa descansar.

O telefone tocou e era o Chinho que me pedia, emocionado, que eu escrevesse alguma coisa sobre minha mãe para o Centenário de Pedralva porque ele não se sentia capaz no momento. Eu prometi que o faria. Eu mesma não chorava. De minhas perdas, sempre chorei como uma tempestade com trovões. Todas as lágrimas caíam de uma vez só, profusamente tal qual uma tromba d’água e depois meus olhos secos apenas observavam os choros dos outros.

           Bem, o maior desafio naquele momento seria nascer uma crônica do meu coração que sangrava lágrimas interiormente. Eu também não me sentia capaz. No entanto, fiz uma de minhas crônicas mais queridas: Alguém viu minha mãe? Ela era generosa. Nunca deixava que um pobrezinho saísse de nossa casa sem um prato de comida que ela própria esquentava. Quando chegava do mercado com sacolas pesadas, costumava dizer sorrindo que, quando estivesse diante de Deus, se não tivesse mais nada a apresentar a Ele, mostraria as sacolas que nos sustentavam, mostraria seu trabalho de dona de casa e mãe, ou seja, a simplicidade grandiosa de sua vida.

           Dentre as poucas coisas que trouxe em seu simples enxoval de casamento, constava uma toalha bordada para uma mesa redonda. Havia uma princesa vestida de azul com pedrinhas que brilhavam. Quando eu era menina, costumava rodear a mesa para sentir com meus dedos a maciez do vestido da princesa e conferir o brilho das pedrinhas. A princesa caminhava numa vereda florida e estava sempre rodeada por borboletas, passarinhos, esquilos e personagens de histórias encantadas em que o mundo é lindo e perfeito e todos são felizes para sempre. Tudo era felicidade. Por ocasião das mudanças nunca mais vi a toalha nem soube da princesa.

           Ocorreu que certo dia, de forma inesperada, como é a vida e a morte, o impiedoso barqueiro chegou e trouxe uma canoa de um só lugar. Minha mãe não teve medo porque medo era coisa que para ela não existia. Mãe não devia morrer, ainda mais a minha.

           A morte é tirana, porém é autêntica, é verdadeira. A vida acaba por nos enganar. Como dizia Manuel Bandeira: “a vida assim nos afeiçoa, prende. Antes fosse toda fel! Que ao mostrar-se às vezes boa, ela requinta em ser cruel”. A vida nos dá os laços e nos ensina a brincar com eles, aprendemos a apertá-los. Aí chega a morte e os corta com precisão matemática, tal como o execrável e competente carrasco habituado na guilhotina a descer a lâmina de uma só vez, sem dó nem piedade.

           Alguém viu minha mãe? Se alguém a viu, eu preciso saber, eu ainda preciso dizer algumas coisas, afinal sempre ficam coisas a dizer. Não me mostrem fotos, agora não, quem sabe mais tarde. Também não me digam que foi melhor assim. Se alguém viu a toalha, aquela da princesa, eu preciso saber. Naquela época eu julgava que a toalha me acompanharia por toda a vida, bem como a princesa, a minha linda e encantada princesa, linda e encantada como ela só.

Misa Ferreira

Aposentada, Misa descobriu o prazer da literatura e passou a escrever contos e crônicas. É formada em Letras pela FEPI Centro Universitário e pós-graduada em Literatura pela Unitau. Escreveu e publicou os livros: Demência, o resgate da ternura (autobiográfico) /Santas mentiras (Crônicas) /Dois anjos e uma menina (infantil) /Estranho espelho e outros contos, além da coluna "Verbo Inverso".


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