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Sonho

04/09/2018

Por Misa Ferreira

Definitivamente o valor das coisas é relativo, não está nelas em si, mas na medida da necessidade que sentimos delas ou na medida do desejo que sentimos por elas em determinado momento e circunstância.

A gente pode ter muita grana, mas tem hora que o dinheiro não vale nada. Se você está numa selva, o dinheiro no bolso não vai poder te dar as coisas mais simples do cotidiano como um cobertor ou um pedaço de papel higiênico. Exemplifico.

Há anos eu viajava todo mês para BH. Já estava habituada com aquela viagem dolorosamente longa. Então eu ia de noite porque dormia e não sentia passar. Mas certa vez, fazia um frio que eu não conseguia suportar. Não era possível dormir de jeito nenhum pelo incômodo do gelo que estava. E a garota ao meu lado dispôs seu travesseiro encostado na janela, tirou um cobertor da mochila e dormiu feito um anjo. Não era manta, mas cobertor grosso. Eu olhava para e moça e sentia uma insana inveja de seu conforto. Que vontade de acordá-la e pagar pelo cobertor. Tudo o que eu precisava, tudo o que eu desejava naquele momento da minha vida era o bendito cobertor. Pagaria uma fortuna por ele! Que viagem!

Outra vez eu e meu marido estávamos em Mendoza e fizemos um passeio oferecido no hotel. Fomos de ônibus turístico, mas sem banheiro. O lugar que visitaríamos era uma montanha num lugar distante.Logo que saímos senti uma ligeira vontade de fazer xixi. Não dei importância, pensava que teríamos obviamente alguma parada dessas pra turista comprar lembrancinhas, com uma xícara de cappuccino e banheiro perfumado. Perguntei pra guia se teríamos uma parada porque eu precisava fazer xixi. Ela aproveitou para explicar a todos que só teríamos uma parada, então, que aproveitássemos. Pois bem, logo no pé da montanha, a guia parou o ônibus num lugar onde tinham somente três banheiros. Restaurante e cafeteria, nada, nada. Três banheiros horrorosos no meio do nada e como era de se esperar, nem pensar em papel higiênico. Seria um luxo que não combinava com o cenário. Não fiz o xixi. Não faço. Eu me recuso. Voltei desolada para o ônibus. Pois me arrependi amargamente. O ônibus se afastava cada vez mais e a vontade foi aumentando a passos largos, eu desesperada. Tão tímida que sou (juro que sou), tive que apelar para a guia outra vez, falei que tinham que parar o carro. Agora teria que ser no mato, meu Deus, que horror! Meu marido me animava, que é que tem? Você consegue! Nesta altura todo mundo já sabia e acompanhava o meu drama. Para minha sorte, o ônibus teve que voltar um tanto não seiporcadeque, como diz a Virgínia minha amiga. Lá estavam os três banheiros sujos sem papel. E a guia me falou: sorte a sua, aproveita. Eu já estava conformada de fazer xixi sem papel, mas uma turista caridosa lá atrás me deu um rolo de papel higiênico passado de mão em mão até chegar a mim. Fui lá e enquanto fazia o bendito xixi, abracei aquele rolo de papel higiênico com muito carinho, como se abraça um ursinho de pelúcia perdido na infância e reencontrado após tantos anos, era o melhor papel higiênico do mundo. Voltei com todos os curiosos me esperando e eu sorrindo disse que estava ótima, agradeci muito à turista e seguimos montanha acima, sem restaurantes, nem banheiros. Oh passeio!  Oh guia!

Mas por que o título “sonho” deste texto? Bem, adoro aquele sonho cheio de creme coberto com açúcar fininho borrifado em cima, ainda mais quando acabou de sair do forno. Sempre que vou ao Pró-Life Estética entregar a minha delicada cútis às mãos de fada da Evanilda, passo na Padaria Morro Chique.  Ali já compro o pão italiano e faço questão de tomar um café preto com o meu adorado sonho, quentinho, com o creme derramando pelas bordas. Aconteceu que nem era dia de cuidar da cútis, fui ao médico lá perto e aproveitei para ir à Padaria. No carro ainda, abri minha carteira. Eu sabia que tinha pouco dinheiro, mas sempre tem o cartão, né? Pois cadê o cartão? Ai aiaiaiai, meu marido usou meu cartão e não devolveu. Eu tinha uma nota de 2 reais e algumas míseras moedas. Bem, eu me dirigi arrasada para a padaria. Daria só para o pão de sal. Chego lá e o tabuleiro de sonhos recém-saídos do forno estava sendo colocado na vitrine. De repente ouço alguém me chamando pelo nome. Era o Fernando meu amigo e ex-colega do BB. Pensei. Vou pedir 10 contos pra ele. Peço a conta dele e deposito. Mas, bobeira minha, não tive coragem. Poderia pedir pra caixa anotar. Ela está careca de me conhecer, mas achei chato, não tive coragem. O Fernando não parava de falar e o rapazinho já tinha o saquinho com 3 pães. Senhora, o que mais? Ahn, abaixei o tom da voz pro Fernando não ouvir. Quanto é 1 sonho? Hem? O quê? O sonho, quanto é? 1 e 75, senhora. Eu não sabia quantas moedas eu tinha, mas 1 real e 75 centavos a caixa deixaria que eu pagasse depois. Lá se foi o Fernando embora com sua carteira recheada de notas de 10 e eu na maior pobreza. Peguei o pão e o sonho e fui para o caixa. Passei a nota de 2 e tirei todas as moedas. Adivinhe: 1 e 75. Saí exultante da Padaria. Voltei pra casa, fiz um cafezinho delicioso e comi demoradamente meu sonho como um manjar dos deuses, como se ele tivesse sido feito na cozinha de Buckingham especialmente para a Rainha Elizabeth.

Se o Fernando estiver lendo esta crônica vai ficar chateado porque tenho certeza que compraria o tabuleiro todo para mim. Eu sei. Mas bastava um. Um único sonho difícil conseguido após momentos de aflição sempre vai ter o melhor sabor do mundo e vai ser o melhor sonho de minha vida!


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