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Culinária e escrita

12/04/2017

Por Misa Ferreira

Nunca tive o menor pendor para as coisas de casa. Lembro-me de minha mãe que me chamava atenção para o fato, dizendo: suas irmãs já sabem costurar na máquina, fazem tricô e crochê e você passa ventando pela minha máquina de costura sem a mínima curiosidade. Era verdade, e é verdade. Na cozinha, para ser absolutamente honesta e sincera, o pouco que sei aprendi com meu marido. Mas não passo de um arroz, uma salada e alguma farofa. Ele é quem cozinha no dia a dia, e curte muito fazer suas receitas. Seu empadão de palmito é imbatível, as empanadas argentinas, hummm, seu pão caseiro, enfim tudo o que faz é saboroso. Quando nos conhecemos, depois de saborear uma comidinha deliciosa que ele havia feito, prometi que eu faria algo da próxima vez. Minha irmã e eterna cúmplice me ensinou uma receita de lasanha que eu adoro. Memorizei cada passo e lá fui tentar minha façanha culinária. Mas ninguém faz uma comida só de guardar os passos. Meu marido, que ouvia um clássico qualquer enquanto curtíamos um vinho, logo percebeu minha falta de intimidade com a cozinha, a começar por cortar cebolas. Tomou o encargo e eu abri o jogo: não sei nem cortar uma cebola. A verdade liberta. Me senti leve como uma pluma. Fingir que cozinhava foi uma santa mentira de perna curta, mas uma coisa é certa: não seria pelo estômago que eu o conquistaria. E nem precisava. Ele já me amava.

E quando o amor acontece, tudo concorre para o bem daqueles que se amam, até não saber cozinhar. Lembrei-me de novo de minha mãe que contava que uma conhecida dela, recém-casada, não sabia fazer nadica de nada de casa. E o marido ficou doente. O médico aconselhou que ele tomasse uma canja de galinha, no tempo em que canja de galinha era remédio. A mulher despediu-se do médico e abriu a boca a chorar porque não tinha a mínima ideia de como fazer a canja. O marido achou graça, a sogra ensinou a nora com o maior prazer, e todos viveram felizes para sempre. Só que tem uma diferença: a tal mulher tornou-se uma banqueteira famosa, e eu continuo no primeiro estágio. Seu pendor estava apenas adormecido, e eu não fui agraciada com este dom, embora possa cozinhar para não morrer de fome.  

Dizem que o gosto pela cozinha já é algo nato, a pessoa nasce com ele ou não. Não sei. Considerando que sempre detestei ir ao supermercado, concordo com meu marido quando diz que o supermercado e a feira são os irmãos da cozinha. Há pessoas que tentam cursos de culinária, alguns, em vão, pois sem vocação, sem refeição. Comigo não haveria curso de culinária que desse jeito, só perco para uma prima.

O que sei fazer com muito trabalho é tecer as ideias, costurar os parágrafos, fazer bordado com as palavras, e às vezes até remendá-las. Mas que ninguém veja o avesso porque a primeira feitura é uma feiura, tal como meu ponto de cruz. Ainda tento cerzir significantes e significados e tudo sem máquina de costura. Assim posso dizer que tanto sei costurar como sei cozinhar, por exemplo, faço sopa de letras com salada de acentos e cozido de frases. No final, apresento um prato complexo, pois vivo sempre cercada de interrogações, louca à procura da expressão, como dizia Augusto dos Anjos. Quem trabalha com a linguagem, trabalha com a alma. Não vou afirmar que tentar dizer o indizível seja mais fácil pra mim do que cortar uma cebola ou espremer um alho, mas é bem mais gostoso.     


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