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Silêncio e Ruído

07/11/2018

Por Dr. Ricardo José de Almeida Leme

O vazio é condição que predispõe ao preenchimento acontecer. O vazio do copo, o vazio da janela, o vazio da porta, o vazio do vaso, o vazio do útero, o vazio onde o eixo da roda se encaixa, o vazio do sapato. O vazio é um espaço perigoso, pode-se cair nele, e viver é de fato muito perigoso.

Em minha infância se dizia: “Mente vazia oficina do Diabo”; um vazio onde até o Diabo poderia cair!? Curiosa associação essa do Diabo com a mente e de Deus com o coração. É como se Deus não pudesse ser sabido ou pensado, senão apenas recordado (cordis = coração). Parafraseando Agostinho de Hipona sobre o tempo: se me perguntam o que é Deus, eu não sei, se não me perguntam eu sei.
É pelo vazio das câmaras cardíacas que o sangue flui. Por outro lado, o cérebro utiliza muito fósforo na forma de ATP em seu metabolismo. Para quem não sabe, fósforo é uma palavra derivada do grego que no latim se torna lúcifer, ambas significando o portador da luz. Mesmo você que já sabe que cérebro e mente são coisas relacionadas, mas muito diferentes, vale pensar a respeito.
 
Posso ser livre de tudo o que tenho, mas posso ser escravo até do que não tenho. A liberdade é um conceito estranho. Por exemplo, sou livre para acreditar ou não em Deus. Na medida em que acredito, a liberdade de arbítrio se manifesta enquanto coopero com o “sistema de leis” divinas. Na medida em que não acredito a liberdade de arbítrio se manifesta enquanto compito com o “sistema de leis” da natureza. Simples assim, geotropismo x teotropismo. Em relação ao livre arbítrio, competir ou cooperar, escolher o mais sensato depende do estado em que me encontro, quanto eu acredito estar no controle da vida e no que escolho acreditar. Escolhas que não se excluem, senão se mesclam até que a unidade seja melhor compreendida por cada um de nós.
 
Meus espaços vazios são cavernas fechadas ou canais de passagem? Cavernas que portam luz ou canais que permitem que a luz circule? Em mim predomina o mental ou o cardíaco; o carnal ou o espiritual?
 
O silêncio é espaço onde tudo pode acontecer. É potencialidade. É campo de metamorfose. É onde o tu pode encontrar com o eu. Sem o silêncio, pouco é possível. Quem está cheio, precisa de um pouco de silêncio; espaço na alma para que alguém possa ser. Não é possível ser sem espaço, e o silêncio é espaço pleno. No silêncio eu me escuto; no silêncio sou escutado. O silêncio é solene e é só nele que o dentro e o fora podem estabelecer diálogo. O artista disse que o silêncio foi a primeira coisa que surgiu. Para recordarmos esse momento primordial, sejamos silentes.
 
A despeito disso, existe hoje guerra declarada ao silêncio. Máquinas de som e imagem insistem na inseminação ruidosa de nossos orifícios, em nossos ofícios. Nossos ossos pulsam com a gravidade da situação, com a gravidade dos baixos profundos, com a gravidade das gravatas e ainda com a gravidade da gravidez. Inseminados com o mesmo e variações do mesmo tema, papagaiamos o barulho pré-fabricado em nossas casas.
 
Ao impedir que a vontade alcance o silêncio, as irrelevâncias das informações cotidianas nos tornam dependentes de mais uma dose. Esse vício moderno que preenche os vazios, os tempos, os sentidos, me tira de mim. Me afasta a vontade e me entrega aos desejos. Vontades de ser escorregam em desejos de ter. Mas, sem o silêncio, sem esse espaço, o que ser senão o que se diz, o que me dizem, o que foi dito naquele programa?
 
Esse barulho que penetra a mente a partir dos tímpanos, que nos rouba a lembrança essencial, precisa ser encarado de frente. Desejo a você que ele ocorra antes e não depois que o tempo se recolha.

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