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Dona Onofra

10/11/2017

Por Paulo R. Labegalini

No dia de finados, além de pedir a Deus por parentes e amigos que partiram, ofereci missa e rezei por pessoas muito queridas que faleceram recentemente, todas no mês passado: Onofra Fernandes, Nilson Canela, Cida Périco e Elza Labegalini. Fiéis devotos de Nossa Senhora, foram chamados pelo Pai no mês que a Padroeira do Brasil completava 300 anos de aparecimento nas águas do Rio Paraíba. Hoje, essas bondosas almas descansam ao lado de nossa Mãe no Céu.

E eu poderia escrever muito sobre cada um desses amigos, mas escolhi relatar um pouco de minha história com Dona Onofra – senhora de 101 anos que assisti como vicentino nos últimos 20 anos de sua vida.

Em 1997, quando a conheci no bairro da Capetinga, Itajubá, ela cuidava de cinco netos pequenos numa casinha muito pobre, quase caindo. Lembro que o fogão era de lenha e a fumaça ficava pairando na cozinha, pois não tinha chaminé. O cheiro era tão forte que precisávamos sair para conversar e, mesmo lá fora, ela tossia sem parar! Cheguei a pensar que aquela velhinha estava com alguma doença grave no pulmão.

Então, meses depois, com a ajuda do amigo Cesário – que conseguiu doações –, derrubamos sua humilde casa e construímos uma nova. Além disso, as doações foram suficientes para comprar móveis e eletrodomésticos novinhos em folha! Que alegria quando, no Natal daquele ano, Dona Onofra e seus netinhos voltaram para o novo lar. Que Deus continue abençoando aqueles benfeitores que nos ajudaram.

Depois, como vicentino da Conferência Nossa Senhora do Sagrado Coração, passei a visitar minha assistida quase toda semana, levando uma cesta básica por mês, gás e remédios. Ela ganhou força e vontade de viver; dizia que não queria morrer sem ver os netos crescidos e independentes. Para isso, lutou muito dia-a-dia nas provações que foi submetida. Inúmeras vezes chorou e pediu minha ajuda para superar os problemas que enfrentava. E sempre Deus teve misericórdia!

A cada visita que eu lhe fazia, rezávamos uma Ave Maria e suplicávamos graças a outros santos de sua devoção. Com o tempo, também fui confiando em suas orações e pedia que rezasse por mim. Sou testemunha que alcancei muitas curas por sua intercessão, pois Jesus tem compaixão dos pobres.

E assim nos acostumamos um com o outro; ela era como uma nova avó pra mim; eu era como um filho pra ela. Toda vez que nos despedíamos, ela dizia: ‘Paulo, não despreza eu. Venha sempre aqui’. Eu prometia e cumpria.

Eu também rezava diariamente por ela e pelos netos, que cresciam rapidamente. E com eles também cresciam os problemas a cada ano; tanto cresciam que o mais velho, Rogério, veio a falecer em acidente de carro. Foi um duro golpe para Dona Onofra, mas sua missão de cuidar dos outros continuava. Aos poucos, sua atenção e seu amor comigo contagiou minha família. Fátima e Soraia – esposa e filha – sempre estavam em sua casa. Não passava um mês sem a visita costumeira àquela senhora tão sofrida, mas muito abençoada nas suas intenções. Também minha mãe a visitava quando vinha a Itajubá, e uma passou a rezar pela outra.

Certo ano, na Semana da Família, ela me acompanhou num testemunho que dei na missa da Matriz Nossa Senhora da Soledade. Falei da bênção em conhecê-la, de sua imensa fé, e ela disse aos presentes: ‘O Paulo é um anjo na minha vida!’

Quando completou 100 anos, em 9 de janeiro de 2016, muita gente dizia que ela estava enganada quanto à sua idade, mas vi vários documentos que comprovavam a longevidade de Dona Onofra. Corpo debilitado, cheio de dores, mas a cabeça sempre boa. Não esquecia de nada! Perguntava de meus filhos pelos nomes e contava detalhes de tudo aquilo que acontecia na minha ausência.

Mas este ano ela precisou ser internada e ficou quase duas semanas no Hospital Escola tratando de início de pneumonia. Chegou muito fraca no local e pensamos que não sairia de lá com vida, porém, a ‘danadinha’ voltou para casa! Nos dias que eu não a visitei no hospital, os médicos perguntaram à família: ‘Quem é Paulo que ela fala tanto?’

Daí, mais duas semanas em sua casa e veio a falecer. Foi bem tratada até os últimos dias: comia pouco, mas aquilo que gostava; tomava banho em cadeira própria; recebia carinho dos vizinhos; tinha uma cuidadora; companhia de dois netos e um bisneto no lar; comia sopa que minha esposa fazia; enfim, demos a assistência que ela merecia – com Jesus Cristo a seu lado.

Na véspera de sua morte, antes de eu viajar a Pouso Alegre para trabalhar, despedi-me dela, dei-lhe um beijo, fiz o sinal da cruz em sua testa e falei: ‘Fica firme aí que quero ver a senhora quinta-feira, na minha volta’. Ela sussurrou: ‘Vá com Deus. Gosto muito de você, Paulo’.

Adeus, Dona Onofra. Ainda não me acostumei com sua ausência, mas espero que eu tenha méritos suficientes para encontrá-la no Céu. Assim seja!


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