Rádio Panorama








EMPREENDA COM SUCESSO!









"Não cato lixo; eu reciclo a vida"...

29/05/2019

Por Dra. Graça Mota Figueiredo

Todas as manhãs, quando chego à Policlínica do Mercado com os alunos do quinto ano para o nosso Ambulatório de Luto, leio essa frase.

Todas as manhãs, quando chego à Policlínica do Mercado com os alunos do quinto ano para o nosso Ambulatório de Luto, leio essa frase.

Ela está escrita à mão, de forma tosca e improvisada, numa carrocinha de coleta de papelão e outros recicláveis, dessas que o próprio dono puxa pelas ruas. Cuida dela um homem jovem, muito simpático e que não se furta a uma boa prosa, como dizemos aqui pelas Gerais.

Digo-lhe que gostei muito da frase na carroça e lhe pergunto quem a criou. Foi ele, é claro. Eu só queria lhe dar a oportunidade de perceber que ele pensou algo muito interessante.

Porque eu, quando li o que ele escrevera, me perdi em divagações.

É verdade: num sentido mais simbólico, menos concreto, quem recolhe o que não serve mais abre espaço para que o novo se instale.

Fico pensando que a maioria de nós mantém junto a si e acumula o que já não serve mais, por medo de ficar vazio de posses. Amores velhos, emoções ultrapassadas, roupas que não servem mais são acumuladas no fundo dos armários da mente, guardando poeira e traças.

Temos medo do vazio, como se atulhar os espaços nos protegesse da solidão.

Entendemos o silêncio apenas como ausência de som e perdemos a oportunidade de engravidar do novo, do nunca pensado, do futuro vivo e não apenas repetido.

Ele não se furta a conversar, e o que ele diz se parece muito com o que ele me fez pensar.

Ele me fala da mulher e dos filhos, e em tudo o que diz transparece esse sentido de movimento para o futuro, para o novo.

Dou aos alunos uma tarefa: aprenderem sobre a vida dele, sobre os seus sonhos, sobre a vida “reciclável” da sua frase. Eles se encantam. São jovens ainda; nem sempre sabem descobrir as coisas pequenas e simples. Nem sempre prestam atenção nas carrocinhas de reciclagem...

Ontem vi a carroça de longe, quando chegava à Policlínica. Ele havia feito uma faixa de alumínio no topo dela e lá estava a sua frase, agora caprichosamente desenhada à mão.

Ele se convenceu de que é um poeta!

Graça Mota Figueiredo

Psiquiatra e Psicoterapeuta Junguiana, Professora de Tanatologia e Cuidados Paliativos na FMIt,  co-autora e co-tradutora de livros na área de Tanatologia e Cuidados Paliativos. Veja sua coluna "Do Divino que há em nós".


Voltar



Anuncie   •   Assine o newsletter   •   Contribua com conteúdo   •   Fale conosco

© 2010 CONEXÃO ITAJUBÁ - Site desenvolvido por B2ML Sistemas utilizando o sistema de gerenciamento de conteúdos b2mlportal.