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O Pintor

24/11/2017

Por Luiz Augusto Fernando Guimarães

Não havia em tela tão branca cor maior que o nada. Os dedos longos e experientes guiaram o pincel por sobre a tela.

Um azul da cor das águas gélidas das montanhas transpassou por uma janela vestida por gotas de orvalhos translúcidas. O azul descia seguido os movimentos calmos das mãos que o pincel guiava. Vagarosamente as mãos se afastaram e aqueles olhos cansados se mantiveram atentos ao que estava à sua frente. Alguns momentos se passaram assim como o orvalho que se desfazia agarrado ao vidro trêmulo. O pincel foi mergulhado em uma tinta marrom que a tampa de um vidro manchado de muitas cores protegia. Aqueles cabelos azuis pontilharam com cautela o azul gélido, dando, assim forma às pedras ásperas, acariciando o leito das aguas azuis.

Uma mancha cor de céu se misturou ao marrom da terra. A coloração desceu pausadamente até o fundo do copo molhado se espatifando com ternura em seu interior. Logo foi surgindo um campo vestido de lindas flores amareladas. E o fundo do copo amanheceu por sobre um verde e anil. Assim como que surgindo do nada uma grande árvore se elevou acima de uma montanha achatada. De seus galhos pássaros cantantes imitavam a festa do canarinho trepado no parapeito da janela ali perto. O sol acariciava suas penas dançantes salpicadas de dourado.  As cores foram beijando a folha da rosa branca. Nas árvores mais distantes as cores do outono pingavam preguiçosas, e o fundo do copo se encheu de entretons graciosos bailando em torno do véu ao seus pés. Acima da campina as montanhas sorriam lançando as nuvens a acariciar os morros maiores. E no fundo do copo um enevoado dócil cobriu o bailar. 

Rosas vermelhas pintadas com esmero se alegraram conforme flutuavam na tela. Seu jardim era povoado por borboletas amareladas vibrantes espalhadas pelo vento, como aquele que lá fora se espreguiçava por sobre as folhas dormentes das árvores inertes. O branco deixou de existir. Em suas costas um mundo eterno despontou, bem como o sorriso do velho pintor, que em um ponto apenas não tocou com o pincel. No meio daquele jardim de rosas vermelhas, uma flor branca irradiou corajosa num branco pintado de tudo. E o fundo do copo se desfez em terna confusão de um mundo incerto.


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