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O Garfo

01/09/2017

Por Luiz Augusto Fernando Guimarães

Que belo garfo era aquele! Brilhava com o transpassar de um sol preguiçoso pela janela. Suas formas eram suaves sem qualquer tipo de aranhão, ou alguma dobrinha que fosse.

O cabo era adornado com dois pequeninos conjuntos de flores simples, terminando em pequeninas pétalas, como que libertas por um vento suave. Seu estado era dos mais primorosos, sendo que podia ver o reflexo da luminária rica do local e, vez ou outra, o borrão rápido de alguém que passava. Se vinha um prateado pouco lapidado, era um garçom a carregar uma bandeja qualquer. Se possuía mais cores e formas, clientes. Movimentei o cabo um pouco. Deparei-me com a visão de uma mulher, num canto não muito distante de min. Lia um pequeno romance aproveitando a mansidão do sol. Os cabelos curtos e a pele forte ali estavam refletidos com perfeição. Era bonita, trajada num vestido florido e discreto, mesmo de longe vi rodeios de pequenas rosas e o fulgor de algo que não conseguia distinguir. O rosto calmo era acariciado pelo reflexo dourado dos seus brincos discretos.

Aproximou-se um garçom a indagar do que eu precisava. Escolhi uma bebida qualquer e o vi se afastar. Olhei para o garfo e não encontrei a bela dama. Algum movimento a removera do foco. Tentei algumas vezes, mas não consegui encontrá-la. Procurei-a com o olhar, rapidamente foi localizada. Estava a umas três mesas de mim, ainda muito entretida em sua leitura. Sim, era realmente bonita, mas perdeu certo encanto, quando vista fora daquele esplendoroso reflexo.

Voltei-me para ele, encontrando uma pequena parte do vidro que dava para a rua. Pude assistir a algumas cenas, refletidas como obras de arte encantadas com tons mais intensos e formas mais desleais. Um mendigo a empurrar um carrinho velho de supermercado passava, acompanhado por um cachorro quase completamente branco, se não fosse por uma mancha escura de pelos que contornava seu olho esquerdo. Encontrei depois a face do mendigo percebendo meu engano: era uma mulher e não um homem como identificara antes que sua imagem se mostrasse um pouco mais exata. Seu rosto sofrido seguia pela rua. Os olhos moribundos não me encontraram, e segundos depois já não estavam mais ali.

Chegou o garçom, logo depois, depositando em minha frente a bebida. Sorvi quase a xícara inteira de café, e já estava novamente entretido com o garfo. Desta vez, certifiquei-me de que não movimentei a mão. Vi um casal de namorados caminhando lentamente. Ouviam juntos uma música qualquer usando um fone simples e curto que os forçava a ficarem apertados num abraço terno. Felizes sorriam um para o outro, brincando de dançar, sem interromper a sua trilha sonora.

 Depositei o garfo na mesa. Pensamentos e lembranças destrutivas de um amor feroz me encontraram desprevenido. Olhei entristecido pelo restaurante quase vazio. Depositei na mesa um pagamento generoso pelo serviço que me foi prestado. Deixei o restaurante apressado, não porque tinha algum compromisso, mas porque queria estar bem distante quando notassem a falta do garfo mais bonito da casa. Perdi-me nas ruas, vivenciando em cada canto lembranças antigas. Memórias com toque adocicado.... De repente, encontrei-me novamente, e voltei para casa sentindo na alma a saudade, e no bolso de minha calça mais um objeto que me fazia lembrar dela.  


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